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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As Antífonas do Ó

Imagem: Paróquia Nossa Senhora do Ó - Mosqueiro
As Antífonas do Ó são sete antífonas especiais, cantadas e/ou recitadas no Tempo do Advento (de 17 - 23 de dezembro - Semana que antecede a Festa do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo). As Antífonas do Ó são assim chamadas porque tem início com esse vocativo.

História:

As Antífonas do Ó foram compostas entre o século VII e o século VIII, sendo uma suma da cristologia, da antiga Igreja, um expressivo desejo de salvação, tanto de Israel no Antigo Testamento, como da Igreja no Novo Testamento. São orações curtas, dirigidas a Cristo, que resumem o espírito do Advento e do Natal. Expressam a admiração da Igreja diante do mistério de Deus feito Homem, buscando a compreensão cada vez mais profunda de seu mistério e a súplica final urgente: “Vem, não tardes mais!”. Todas as sete antífonas são súplicas a Cristo, em cada dia, invocado com um título diferente, um título messiânico tomado do Antigo Testamento. 

Uso na liturgia: 

A reforma litúrgica pós Concilio Vaticano II, ao introduzir o vernáculo na liturgia, não esqueceu os textos das Antífonas do Ó, veneráveis pela antiguidade e atribuídos por muitos ao Papa Gregório Magno. Ela os valorizou ainda mais sendo introduzidas como aclamação ao Evangelho da Santa Missa, além de conservá-los como antífonas do Magnificat da celebração das Vésperas. Cada antífona é composta de uma invocação, ligada a um símbolo do Messias, e de uma súplica, introduzida pelo verbo "vir".

Antífona do dia 17 de dezembro
Ó Sabedoria
que saístes da boca do altíssimo
atingindo de uma a outra extremidade
e tudo dispondo com força e suavidade:
Vinde ensinar-nos o caminho da prudência

Antífona do dia 18 de dezembro
Ó Adonai
guia da casa de Israel,
que aparecestes a Moises na chama do fogo
no meio da sarça ardente e lhe deste a lei no Sinai
Vinde resgatar-nos pelo poder do

Antífona do dia 19 de dezembro
Ó Raiz de Jessé
erguida como estandarte dos povos,
em cuja presença os reis se calarão
e a quem as nações invocarão,
Vinde libertar-nos; não tardeis jamais.

Antífona do dia 20 de dezembro
Ó Chave de Davi
o cetro da casa de Israel
que abris e ninguém fecha;
fechais e ninguém abre:
Vinde e libertai da prisão o cativo
assentado nas trevas e à sombra da morte.

Antífona do dia 21 de dezembro
Ó Oriente
esplendor da luz eterna e sol da justiça
Vinde e iluminai os que estão sentados
nas trevas e à sombra da morte.

Antífona do dia 22 de dezembro
Ó Rei das nações
e objeto de seus desejos,
pedra angular
que reunis em vós judeus e gentios:
Vinde e salvai o homem que do limo formastes

Antífona do dia 23 de dezembro
Ó Emanuel,
nosso rei e legislador,
esperança e salvador das nações,
Vinde salvarnos,
Senhor nosso Deus.

As antífonas em latim têm uma particularidade. Vejamos como começam elas em latim e os dias correspondentes:
17.12 - "O Sapientia" (Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo)
18.12 - "O Adonai" (Ó meu Senhor, Guia da Casa de Israel)
19.12 - "O Radix" (Ó Raiz de Jessé)
20.12 - "O Clavis" (Ó Chave de David)
21.12 - "O Oriens" (Ó Sol nascente, esplendor da Luz Eterna)
22.12 - "O Rex gentium" (Ó Rei das Nações)
23.12 - "O Emmanuel" (Ó Deus connosco)

Se lermos as palavras, formadas pelas letras iniciais das palavras latinas, após a interjeição “O”, e lidas no sentido inverso, da última para a primeira, nos encontramos diante do acróstico – composição poética em que as letras iniciais dos versos, ou as do meio, ou as do final, formam uma frase ou uma palavra –, ou seja, “O ERO CRAS”. Ao traduzir o texto temos: “ERO” que significa “ontem” e “CRAS” que significa “amanhã”, formando assim a frase: “virei amanhã, serei amanhã, estarei amanhã”, refletindo desta forma a resposta do Messias à súplica dos fiéis.

Termino suplicando neste tempo propicio a oração: “Maranatha!” - Vem Senhor Jesus!

domingo, 15 de dezembro de 2013

III Domingo do Advento (Gaudete)


Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete. Modestia vestra nota sit omnibus hominibus: Dominus enum prope est. Nihil solliciti sitis: sed in omni oratione petitiones vestrae innotescant apud Deum. enedixisti, Domine, terram tuam: avertisti captivitatem Jacob. (Intróito)

Neste domingo, III do Advento, a santa igreja celebra o chamado domingo Gaudete, que possui este nome em razão do intróito deste dia começar por esta palavra, que significa Regozijai. Nosso coração de filhos da santa igreja não poderia estar de outro modo, pois a cor Rósea já anuncia as alegrias que em breve iremos experimentar no Natal do Senhor.

Nesta semana, nos tempos antigos faziam-se os escrutínios dos ordenandos e dos jejuns que precedem as ordenações, a exemplo dos catecúmenos que no IV Domingo da Quaresma (Laetare) preparavam-se para a recepção do batismo, neste III do Advento os eleitos ao sacerdócio preparavam-se para o sacramento da ordem.

Toda a liturgia deste dia aponta que o senhor está próximo, “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo, alegrai-vos! O Senhor está perto” diz a antífona, esta espera deve ser guiada pelo exemplo de João Batista, que não cedeu à tentação de se dizer Messias conforme observamos no Evangelho. Ele não era nem o Messias, nem Elias, nem algum dos profetas, era simplesmente um servo fiel como todos nós o devemos ser para bem receber nosso salvador.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Advento


"A luz de Cristo quer iluminar a noite do mundo através da luz que somos nós; sua presença já iniciada deve seguir crescendo por meio de nós. Não há alegria mais luminosa para o homem e para o mundo que a da graça, que apareceu em Cristo." João Paulo II

O tempo de preparação de quatro semanas que antecede a Festa do Natal é chamado Advento. Isto quer dizer que o redentor do gênero humano está, por assim dizer, a caminho de nós, enquanto nos preparamos para recebê-lo. A consciência de nosso pecado nos faz esperar ardentemente a vinda do Salvador. Estas quatro semanas nos recordam a primeira vinda do Salvador, em carne, e leva-nos a pensar em sua segunda vinda, no fim do mundo.

As partes próprias das missas nesses quatro domingos põem esse pensamento diante de nossos olhos. Vemos o Salvador que a de vir, como o viram em espírito os patriarcas: “Salus mundi”, a salvação do mundo. Como anunciaram os profetas: “Lux Mundi”, a luz do mundo que dissipa as trevas e ilumina as nações. Como o designou São João Batista, o precursor: “Agnus Dei, qui tollit peccáta mundi”, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Como finalmente Maria o contemplou: “Fílius Altissimi”, filho do altíssimo.

Este tempo nos diz ainda que ele virá uma segunda vez, no fim do mundo(Evangelho I Domingo). Virá não mais como em Belém, com as mãos cheias de misericórdia e com aparência pobre e humilde, mas como juiz dos vivos e dos mortos.

Para celebrar bem o Advento devemos em primeiro lugar, ter um grande desejo do Salvador, o grande desejo que ele nasça no meio de nós, desejo este que nasce da convicção firme da necessidade absoluta de redenção, não somente para nossa pessoa, mas, acima de tudo, para toda a Santa Igreja. Em segundo lugar, devemos manter em nós o espírito de penitência e conversão, sem um retorno de todo o ser a Cristo não há como viver a alegria e a esperança na expectativa da sua vinda. É necessário a exemplo de São João Batista que "preparemos o caminho do Senhor" nas nossas próprias vidas, lutando incessantemente contra o pecado, através de uma maior disposição para a oração e mergulho na Palavra.

Particularidades do Advento:
- Durante as quatro semanas não se canta o Glória
- Cor Litúrgica Roxa e Rosa (III Domingo)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Primeira pregação do Advento de 2011 à Casa Pontifícia



"Ide ao mundo inteiro"

A primeira ondada de evangelização
Em resposta ao apelo do Sumo Pontífice de um renovado compromisso com a evangelização e em preparação para o Sínodo dos Bispos de 2012 sobre o mesmo assunto, me proponho a identificar, nestas meditações do Advento, quatro ondadas da nova evangelização na história da Igreja, ou seja, quatro momentos nos quais se testemunham uma aceleração ou uma retomada do compromisso missionário. São eles:


1. A expansão do cristianismo nos primeiros três séculos de vida, até a véspera do edito de Constantino, cujos protagonistas, em primeiro lugar, eram os profetas itinerantes e, depois, os bispos;

2. Os séculos VI-IX, em que assistimos à reevangelização da Europa após as invasões bárbaras, especialmente pela obra dos monges;

3. O século XVI com a descoberta e a conversão ao cristianismo dos povos do "novo mundo", especialmente pela obra dos frades;

4. A época atual que vê a Igreja envolvida numa reevangelização do Ocidente secularizado, com a participação determinante dos leigos.



Em cada um desses momentos tentarei destacar o que podemos aprender na Igreja de hoje: quais erros evitar e os exemplos a imitar e quais contribuições específicas que podem dar à evangelização os pastores, os monges, os religiosos de vida ativa e os leigos.

1. A difusão do cristianismo nos primeiros três séculos.
Hoje começamos com uma reflexão sobre a evangelização cristã nos primeiros três séculos. Principalmente um motivo faz deste período um modelo para todos os tempos. É o período no qual o cristianismo encontra o seu caminho exclusivamente por própria força. Não há nenhum "braço secular" que o apoie; as conversões não são determinadas pelas vantagens externas, materiais ou culturais; ser cristão  não é um costume ou uma moda, mas uma escolha contra a corrente, muitas vezes com risco de vida. Em alguns aspectos, a situação se voltou a criar hoje em diferentes partes do mundo.

A fé cristã nasce com uma abertura universal. Jesus tinha dito aos seus apóstolos para irem "ao mundo inteiro " (Mc 16, 15), para "fazerem discípulos a todas as nações" (Mt 28, 19), para serem testemunhas “até os confins da terra” (At 1, 8), para “pregarem a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24, 47).

A aplicação do princípio desta universalidade já acontece na geração apostólica, embora não sem dificuldade e lacerações. No dia de Pentecostes a primeira barreira é superada, a da raça (os três mil convertidos pertenciam a outros povos, mas eram todos crentes do judaísmo); na casa de Cornélio e no assim chamado concílio de Jerusalém, especialmente por impulso de Paulo, a barreira mais difícil de todas foi superada, aquela religiosa que separava os hebreus dos gentios. O evangelho tem, dessa forma, o mundo inteiro diante de si, ainda que por agora esse mundo seja limitado, no conhecimento dos homens, ao Mediterrâneo e às fronteiras do Império Romano.

Mais complexo é seguir a expansão de fato, ou geográfica, do cristianismo nos três primeiros séculos que, porém, é menos necessária para o nosso propósito. O estudo mais abrangente, e até agora insuperável a esse respeito é aquele de Adolph Harnack, "Missão e expansão do cristianismo nos primeiros três séculos".

Um aumento acentuado na atividade missionária da Igreja se realiza sob o imperador Commodo (180-192) e, em seguida, na segunda metade do século III, até às vésperas da grande perseguição de Diocleciano (302). Este, além das ocasionais perseguições locais, foi um período de relativa paz que permitiu à Igreja primitiva consolidar-se internamente e desenvolver um novo tipo de atividade missionária.

Vejamos em que consiste esta novidade. Nos dois primeiros séculos a propagação da fé foi confiada à iniciativa pessoal. Tratava-se dos profetas itinerantes, mencionados na Didaqué, que moviam-se de um lugar para outro; muitas conversões deveram-se a contatos pessoais, favorecidos pelos trabalhos comuns exercitados pelas viagens e pelas relações comerciais, pelo serviço militar e por outras circunstâncias da vida. 

Orígenes nos dá uma descrição comovente do zelo desses primeiros missionários:
"Os cristãos fazem todo o esforço possível para espalhar a fé por toda a terra. Para esse fim, alguns deles se propõem formalmente como tarefa das suas vidas o peregrinar não somente de cidade em cidade, mas também de município em município e de vilarejo em vilarejo para ganhar novos fiéis para o Senhor. Nem se passe pela cabeça, espero, que eles façam isso por lucro, pois até mesmo, muitas vezes se recusam a aceitar o que é necessário à vida".

Agora, na segunda metade do século III, estas iniciativas pessoais são cada vez mais coordenadas e em parte substituídas pela comunidade local. O bispo, até mesmo por reação aos efeitos de desintegração da heresia gnóstica, conquista a melhor sobre os mestres, como diretor da vida interna da comunidade e centro propulsor da sua atividade missionária. A comunidade é agora o sujeito evangelizador, a tal ponto que um erudito como Harnack, certamente não suspeito de simpatia pela instituição, possa afirmar: "Devemos ter por certo que a mera existência e a atividade constante das comunidades individuais foi o principal fator na propagação do cristianismo".


No final do terceiro século, a fé cristã penetrou praticamente todos os estratos da sociedade, já tem sua própria literatura em lingua grega e uma, embora no início, em lingua latina; possui uma sólida organização interna; começa a construir edifícios sempre mais amplos, sinal do aumento do número de fiéis. A grande perseguição de Diocleciano, além das muitas vítimas, não fez nada mais que destacar o fato de que a força da fé cristã já era irreprimível. A última luta de braço entre o Império e o cristianismo é testemunha disso. 
No fundo, Constantino não vai fazer nada mais do que tomar nota dessa nova relação de forças. Não será ele que vai impor o cristianismo para o povo, mas o povo que vai lhe impor o cristianismo. Afirmações como aquelas de Dan Brown no romance "O Código Da Vinci" e de outros propagadores, segundo os quais  foi Constantino, por razões pessoais, a transformar, com o seu edito de tolerância e com o concílio de Nicéia, uma obscura seita religiosa judaica na religião do império, são baseadas numa total ignorância dos fatos que precederam esses eventos.


2. As razões do sucesso
Um tema que sempre apaixonou os historiadores é aquele das razões do triunfo do cristianismo. Uma mensagem nascida em um canto obscuro e desprezado do Império, entre pessoas simples, sem cultura e sem poder, em menos de três séculos, se estende a todo o mundo então conhecido, subjugando a refinadíssima cultura dos gregos e o poder imperial de Roma!

Entre as diversas razões do sucesso, alguns insistem no amor cristão e no exercício ativo da caridade, até torná-lo "o fator mais importante e poderoso para o sucesso da fé cristã", de tal forma que induziria mais tarde o imperador Juliano o Apóstata, a fornecer o paganismo de semelhantes obras de caridade para combater este sucesso.

Harnack, por outro lado, dá uma grande importância ao que ele chama de a natureza "sincretista" da fé cristã, ou seja, da capacidade de conciliar em si as tendências opostas e os diversos valores presentes nas religiões e na cultura do tempo. O cristianismo se apresenta ao mesmo tempo, como a religião do Espírito e do poder, que é acompanhada por sinais sobrenaturais, carismas e milagres, e como a religião da razão e do Logos integral, “a verdadeira filosofia”, nos dizeres de Justino Mártir. Os autores cristãos são "os racionalistas do sobrenatural", diz Harnack citando as palavras do apóstolo Paulo sobre a fé como "tratamento racional" (Romanos 12,1).

Desta forma o cristianismo reúne em si, num perfeito equilíbrio, o que o filósofo Nietzsche define o elemento apolíneo e o elemento dionisíaco da religião grega, o Logos e o Pneuma, a ordem e o entusiasmo, a medida e o excesso. É isto que, pelo menos em parte, entendiam os Padres da Igreja com o tema da "sóbria embriaguez do Espírito".

"A religião cristã – escrevia Harnack no final da sua monumental pesquisa – , desde o início, apareceu com uma universalidade que a permitiu reivindicar para si toda a vida inteiramente, com todas as suas funções, as suas alturas e profundidades, sentimentos, pensamentos e ações. Foi esse espírito de universalidade que lhe garantiu a vitória. Foi isso que a levou a professar que o Jesus proclamado por ela era o Logos divino ... Assim se ilumina com nova luz e aparece quase uma necessidade, até mesmo aquela poderosa atração pela qual chegou a absorver e a submeter a si o helenismo. Tudo o que era de alguma forma capaz de vida entrou como elemento na sua construção ... E essa religião não deveria vencer? "


A impressão que se tem ao ler este resumo é que o sucesso do cristianismo é devido a uma combinação de fatores. Alguns foram tão longe na busca das causas deste sucesso que encontraram vinte motivos a favor da fé e muitos outros que estavam agindo na direção oposta, como se o êxito final dependesse da prevalência do primeiro sobre o segundo.

Agora eu gostaria de destacar o limite inerente a tal abordagem histórica, mesmo quando esta é feita por historiadores que tem fé como aqueles que até agora tenho tido em conta. O limite, devido ao mesmo método histórico, é de dar mais importância ao sujeito do que ao objeto da missão, mais aos evangelizadores e às condições em que ela ocorre, do que ao seu conteúdo.


A razão que me empurra a fazê-lo é que isso é também o limite e o perigo inerente a tantas abordagens atuais e mediáticas, quando se fala de uma nova evangelização. Esquece-se de uma coisa muito simples: que Jesus mesmo tinha dado, antecipadamente, uma explicação da difusão do seu Evangelho e é dessa que devemos começar toda vez que nos propomos um novo esforço missionário.

Escutemos mais uma vez duas breves parábolas evangélicas, aquela da semente que cresce também à noite e aquela da semente de mostarda.
“E dizia: ‘acontece com o Reino de Deus o mesmo que com o homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou’.”(Mc 4, 26-30).

Esta parábola, por si só, diz-nos que a razão essencial para o sucesso da missão cristã não vem de fora mas de dentro, não é obra do semeador e nem sequer principalmente do solo, mas da semente. A semente não pode ser jogada por si só, no entanto, é automaticamente e por si mesma  que ela cresce. Depois de ter jogado a semente o semeador pode também ir dormir, a vida da semente já não depende dele. Quando esta semente é "a semente jogada na terra e morta", ou seja  Jesus Cristo, nada poderá impedir que essa "dê muitos frutos". Pode-se dar todas as explicações que você quiser desses frutos, mas estas permanecerão sempre na superfície, nunca captarão o essencial.

Quem captou com clareza a prioridade do objeto do anúncio sobre o sujeito é o apóstolo Paulo.
"Eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem fazia crescer”. Estas palavras parecem ser um comentário sobre a parábola de Jesus. Não se trata de três operações com a mesma importância; de fato, o apóstolo acrescenta: " Assim, pois, aquele que planta, nada é: aquele que rega nada é; mas imorta somente Deus, que dá o crescimento”. (1 Cor 3, 6 -7). A mesma distância qualitativa entre o sujeito e o objeto do anúncio está presente em outra palavra do Apóstolo: "Mas nós temos este tesouro em vasos de barro, para que este grande poder seja atribuído a Deus e não a nós" ( 2 Cor 4,7). Tudo isso se traduz nas exclamações programáticas: "Nós não pregamos a nós mesmos, mas o Senhor Jesus Cristo!" e ainda "Nós pregamos Cristo crucificado".

Jesus pronunciou uma segunda parábola com base na imagem da semente que explica o sucesso da missão cristã e que dever ser tida em conta hoje, diante da imensa tarefa de reevangelizar o mundo secularizado.
“E dizia: ‘com que compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda que, quando é semeado na terra – é a menor de todas as sementes da terra – mas, quando é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e deita grandes ramos, a tal ponto que as aves do céu se abrigam à sua sombra” (Mc 4, 30-32).

O ensinamento que Cristo nos dá com esta parábola é que o seu Evangelho e a sua mesma pessoa é a menor coisa que existe sobre a terra porque não há nada menor e mais fraco do que uma vida que termina numa morte de cruz. No entanto, esta minúscula "semente de mostarda" está destinada a se tornar uma grande árvore, de modo a acomodar em seus ramos todos os pássaros que vão refugiar-se ali. Isso significa que toda a criação, absolutamente toda irá ali encontrar refúgio.

Que contraste com as reconstruções históricas mencionadas acima! Tudo lá parecia incerto, aleatório, suspenso entre o sucesso e o fracasso; aqui tudo já foi decidido e garantido desde o começo! No final do episódio da unção de Betânia, Jesus pronunciou estas palavras: "Em verdade vos digo que, onde quer que este Evangelho seja anunciado, em todo o mundo, em memória dela se dirá também o que ela fez" (Mateus 26,13 ). A mesma consciência tranquila de que um dia sua mensagem seria anunciada “a todo o mundo”. E certamente não é uma profecia "post eventum", porque naquele momento, tudo pressagiava o oposto.

Até mesmo nisso quem melhor captou "o mistério escondido" foi Paulo. Me impressiona sempre um fato. O Apóstolo pregou no Areópago de Atenas e assistiu a uma rejeição da mensagem, educadamente expressada com a promessa de ouvi-lo em outra ocasião. De Corinto, onde ele foi logo depois, escreveu a Carta aos Romanos, onde afirma ter recebido a tarefa de conduzir "à obediência da fé todas as nações " (Rm 1, 5-6). O insucesso não avariou minimamente a sua confiança na mensagem: "Eu não me envergonho - grita - do evangelho, porque é potência de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu, primeiro, como do grego" (Rom 1, 16 ). Apóstolo Paulo, dá-nos um pouco "desta tua fé e desta tua coragem e não nos desanimaremos diante da tarefa sobre-humana que está diante de nós!

"Toda árvore, diz Jesus, é reconhecida pelos seus frutos" (Lc 6, 44). Isto é verdade para toda árvore, exceto para a árvore nascida dele, o cristianismo (e de fato ele está falando aqui dos homens); essa única árvore não é conhecida pelo fruto, mas a partir da semente e da raiz. No cristianismo a plenitude não está no fim, como na dialética hegeliana do devir (“o verdadeiro é o inteiro”), mas está no princípio; nenhum fruto, nem mesmo os maiores santos, acrescentam algo à perfeição do modelo. Neste sentido tem razão quem afirmou que “o cristianismo não é perfectível”.

3. Semear e... ir dormir
Aquilo que os historiados das origens cristãs não registraram ou dão pouca importância é a certeza inabalável que os cristãos da época, pelo menos os melhores deles, tinham sobre a bondade e a vitória final da sua causa. "Vocês podem nos matar, mas não nos podem prejudicar", dizia Justino Mártir ao juiz romano que o condenava à morte. No final foi essa tranquila certeza que lhes garantiu a vitória e convenceu as autoridades políticas da inutilidade dos esforços para suprimir a fé cristã.

É isso o que mais nos acontece hoje: despertar nos cristãos, pelo menos naqueles que pretendem se dedicar ao trabalho da reevangelização, a certeza íntima da verdade do que anunciamos. "A Igreja, Paulo VI disse certa vez, precisa recuperar o desejo, o prazer e a certeza da sua verdade". Devemos acreditar, primeiramente nós, em tudo o que anunciamos; mas acreditar realmente, "com todo o coração, com toda a alma,  com toda a mente". Temos de ser capazes de dizer com Paulo: "Animados pelo mesmo espírito de fé, como está escrito: Eu acreditei, portanto, eu falei, nós também acreditamos e, portanto, falamos" (2 Coríntios 4, 13).

A tarefa prática que as duas parábolas de Jesus nos designam é semear. Semear com mãos cheias, “no momento adequado e inadequado" (2 Tm 4, 2). O semeador da  parábola que sai para semear não se preocupa com o fato de que algumas sementes acabem na rua e entre os espinhos, e pensar que aquele semeador, fora da metáfora, é ele mesmo, Jesus! A razão é que, neste caso, não se pode saber com antecedência qual terreno se revelará bom, ou duro como o asfalto e sufocante como um arbusto. Há no meio a liberdade humana que o homem não pode prever, e Deus não quer violar. Quantas vezes entre as pessoas que ouviram algum sermão ou leram um determinado livro, verifica-se que quem o tomou mais a sério e teve a vida mudada era a pessoa que menos se esperava, alguém que estava ali por acaso, ou até mesmo relutante. Eu mesmo poderia contar dezenas de casos.

Semear então e depois... ir dormir! Ou seja, semear e depois não estar lá o tempo todo olhando, quando brota, onde brota, quantos centímetros está crescendo diariamente. A germinação e o crescimento não é nosso negócio, mas de Deus e do ouvinte. Um grande humorista Inglês do século XIX, Jerome Klapka Jerome, disse que a melhor maneira de fazer demorar a ebulição da água numa panela é aquela de estar de olho nela e esperar com impaciência.

Fazer o contrário é fonte inevitável de ansiedade e de impaciência: coisas que Jesus não gosta e que ele nunca fez quando esteve na terra. No Evangelho, ele nunca parece ter pressa. "Não andem ansiosos pelo amanhã, dizia aos seus discípulos, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6, 34).

Neste sentido, o poeta cristão Charles Péguy põe na boca de Deus palavras que são boas para meditarmos:

"Disseram-me que há homens
Que trabalham bem e dormem mal.
Que não dormem. Que tem falta de confiança em mim.
É quase pior do que
se não trabalhassem mas dormissem, porque a preguiça
Não é pecado maior do que a ansiedade ...
Não falo, diz Deus, daqueles homens
que não trabalham e não dormem.
Esses são pecadores, é claro ...
Falo daqueles que trabalham e não dormem ...
Tenho pena deles. Eles não confiam em mim ...
Governam muito bem seus assuntos durante o dia.
Mas não querem confiar-me o governo durante a noite...
Quem não dorme é infiel à Esperança... ".


As reflexões realizadas nesta meditação nos levam, em conclusão, a colocar na base do esforço para uma nova evangelização um grande ato de fé e de esperança para sacudir de cima qualquer sentimento de impotência e resignação. Temos diante de nós, é verdade, um mundo fechado no secularismo, inebriado pelos sucessos da técnica e das possibilidades oferecidas pela ciência, refratário ao anúncio do Evangelho. Mas era talvez menos confiante em si e menos refratário ao evangelho o mundo no qual viviam os primeiros cristãos, os gregos com a sua sabedoria e o Império Romano com o seu poder?

Se houver algo que possamos fazer, depois de ter "semeado", é "irrigar", com a oração, a semente lançada. Por isso terminemos com a oração que a liturgia nos faz recitar na Missa "para a evangelização dos povos":

Ó Deus, tu queres que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade; olha quão grande é a tua messe e manda operários, para que seja anunciado o Evangelho à toda criatura, e o teu povo, reunido pela palavra de vida e moldado pela força dos sacramentos, prossiga no caminho da salvação e do amor.
Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Pe. Frei. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Frei Raniero Cantalamessa fala sobre Tempo do Advento

Pe. Frei Raniero Cantalamessa e S.S Bento XVI



Maria é "a melhor companheira de viagem durante o Advento", afirma o pregador da Casa Pontifícia, frei Raniero Cantalamessa.

No último domingo, 27, a Igreja deu início a um novo Ano Litúrgico, com o início do Tempo do Advento. Segundo o frei capuchinho, a Palavra de Deus é sempre a mesma, mas, também, sempre nova, "porque cai em meio a situações novas e porque o Espírito Santo lança luz sobre essas novas implicações".

Na próxima sexta-feira, 2, Cantalamessa começa a série de meditações tradicionalmente feitas ao Papa e à Cúria Romana durante as sextas-feiras deste Tempo Litúrgico da Igreja.

Confira a entrevista do frei à Rádio Vaticano.

Rádio Vaticano – Nos ciclos anuais do Tempo Litúrgico, quais são as novidades a se colher e viver?

Frei Raniero Cantalamessa – A novidade vem do Espírito, porque, a cada ano, o Espírito dá vida nova às palavras que escutamos, e que escutamos em um contexto sempre novo. Portanto, como a Palavra de Deus é sempre aquela – e a cada vez, no entanto, é nova, porque cai em meio a situações novas e porque o Espírito Santo lança luz sobre essas novas implicações –, assim, neste momento, a Igreja está vivendo dois grandes temas: a evangelização, que será o tema do Sínodo do próximo ano, e, depois, o Ano da Fé convocado por Bento XVI. Portanto, já o Advento se presta a começar a dar um sentido concreto a esse Ano da Fé e, ao centro do Advento, há propriamente a fé de Maria, há a fé dos pastores, dos Magos. Não se pode começar, portanto, de melhor maneira o Ano da Fé do que vivendo exatamente a plenitude do Advento.


RV – Como predispor-se para viver plenamente o Tempo do Advento?

Frei Cantalamessa – A predisposição exterior é aquela de se dar um pouco mais de espaço de silêncio, de oração, de contemplação. Os tempos fortes servem-nos também para isto: para produzir uma ruptura com o ritmo habitual da vida. Não se pode certamente diminuir o compromisso, o trabalho, mas se pode diminuir o ruído da televisão e de outras coisas, de tal forma que se possa entrar em um clima de maior silêncio, de maior interioridade. No fundo, contudo, aquilo que decide é a abertura maior ou menor ao Espírito Santo, porque é o Espírito Santo a ser a presença viva de Cristo. O Advento tem sentido enquanto revivemos a expectativa, a vinda de Cristo: mas quem torna Cristo presente na Igreja, na história, é Ele, é o Espírito Santo. O Espírito Santo vem sobre Maria e o Espírito Santo, neste Tempo de Advento, deveria vir sobre todos os cristãos. E ele vem. O importante é que seja desejado, esperado, porque, como diz São Boaventura: "O Espírito Santo vai lá onde é esperado, desejado e amado".


RV – Uma expectativa que tem a duração de quatro semanas. Como se desenvolve o percurso litúrgico?

Frei Cantalamessa – Há, no interior do Advento, um caminho de aproximação que se intensifica. No início, por exemplo, na liturgia, escuta-se, sobretudo, Isaías – textos de Isaías que anunciam o Advento da salvação de longe. Depois, nas segunda e terceira semana, a figura central é João Batista, que é já o precursor e, portanto, nos aproximamos um pouco mais. O último domingo do Advento é dominado pela figura de Maria que é, eu diria, a melhor companheira de viagem durante o Advento, porque viveu este tempo como toda a mãe na iminência do parto: com uma interioridade, uma intensidade, uma ternura particulares. Portanto, Maria pode ajudar-nos certamente a andar ao encontro de Cristo, não de uma forma qualquer, sem amor, mas andar ao encontro de Cristo com o coração, mais ainda que com o tempo.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Última Pregação do Advento do Frei Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.


Frei Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.
Pregando durante a sexta-feira santa no Vaticano
Sua Santidade o Papa Bento XVI participou da terceira e última Pregação do Tempo do Advento na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano, durante a manhã desta sexta-feira, 17. Na qual o pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., abordou o mistério do Natal, que "pode ser ocasião privilegiada para dar um salto de fé. Essa é a suprema 'Teofania' de Deus, a mais alta 'manifestação do Sagrado'". O pregador capuchinho afirmou ainda que o secularismo aos poucos estar tirando do Natal o caráter de 'mistério tremendo' - que conduz ao santo temor e à adoração - e conduzindo apenas ao aspecto de 'mistério fascinante', que ressalta somente celebrações familiares, de renas e Papai Noel. 

Um auxílio para viver o verdadeiro sentido desta festa é encontrar espaços de silêncio: "A Mãe de Deus é o modelo insuperável deste silêncio natalício. [...] O silêncio de Maria no Natal é mais que um simples silenciar; é maravilha, é adoração; é um 'religioso silêncio', um estar estupefato pela realidade". 

O pregador da Casa Pontifícia salientou que vive verdadeiramente o Natal quem é capaz de fazer hoje, "à distância de séculos, aquilo que teria feito se estivesse presente naquele dia. Quem faz aquilo que ensinou a fazer Maria: ajoelhar-se, adorar e silenciar!". 

Racionalismo 

Frei Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., centrou suas reflexões na resposta cristã ao racionalismo, fazendo uso de amplos trechos de discursos e outras intervenções do recém-beatificado Cardeal John Newman. 

De acordo com o Cardeal inglês, o racionalismo pode ser entendido como a utilização de máximas e conceitos mundanos, sem levar em consideração ou respeitar a lógica própria do campo religioso, propondo a razão como juiz último em assuntos de todas as áreas. 

É de se esperar que a contestação recíproca entre fé e razão continue no futuro, na opinião de Cantalamessa. "É inevitável que toda a época refaça o caminho por conta própria, mas nem os racionalistas converterão com os seus argumentos aos crentes, nem os crentes aos racionalistas. É necessário encontrar uma via para romper esse círculo e libertar a fé dessa estreiteza", propõe. 

Em todas as suas intervenções, o Beato Newman colocou em destaque um mesmo alerta: não se pode combater o racionalismo com um outro racionalismo, mesmo que de sentido contrário.

Fonte: Canção Nova

domingo, 5 de dezembro de 2010

Segundo Domingo do Advento – Angelus

Queridos irmãos e irmãs!

O Evangelho deste segundo domingo do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta a figura de São João Batista, que, de acordo com uma famosa profecia de Isaías (cf. 40,3), se retirou para o deserto da Judéia e através de sua pregação, chamou o povo ao arrependimento, a fim de que todos estivessem prontos até a iminente vinda do Messias. São Gregório Magno diz que o Batista prega a verdadeira fé e boas obras... para que o poder penetrante da graça, a luz da verdade, os caminhos para Deus e comecem a ser endireitados pelos pensamentos honestos, após a escuta da Palavra, e guiados para o bem (Hom. In Evangelia em, XX, 3, IAC 141, 155). O precursor de Jesus, localizado entre o Antigo e o Novo Testamento, é como uma estrela antes do nascer do sol, Cristo, o Único, ou seja, em que - de acordo com outra profecia de Isaías – “Sobre ele há de pousar o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e compreensão, espírito de prudência e valentia espírito de conhecimento e temor do Senhor”. (Isaías 11:2).
Neste tempo de Advento, também nós somos chamados a ouvir a voz de Deus, ecoando no deserto do mundo através das Escrituras Sagradas, especialmente quando prega o poder do Espírito Santo. A Fé, na verdade, torna-se mais forte quando é iluminada pela Palavra de Deus, de "tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que, pela constância e consolação que nos dão as Escrituras, sejamos firmes na esperança”. (Rom. 15:4). O modelo de escuta é a Virgem Maria: "Mãe de Deus, contemplando uma existência inteiramente à palavra, encontramo-nos chamados a entrar no mistério da fé pela qual Cristo vem habitar em nossas vidas. Cada crente cristão, Ambrósio nos lembra, em certo sentido concebe e gera o Verbo de Deus "(Esort. ap. Verbum Domini, 28).
Caros amigos, "a nossa salvação está baseada em uma vinda", escreveu Romano Guardini (La santa notte. Dall’Avvento all’Epifania, Brescia 1994, p. 13). Com o Salvador veio à liberdade de Deus... Então, a decisão da fé consiste em aceitar O que se aproxima... (ivi, p. 14). "O Redentor - acrescentou - está em cada homem, em suas alegrias e angústias, em seus conhecimentos de forma clara, em suas dúvidas e tentações, em tudo o que constitui a sua natureza e sua vida" (ivi, p. 15).
Para a Virgem Maria, em cujo ventre habitou o Filho do Altíssimo, e que na próxima quarta, 08 de dezembro, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição, pedimos-lhe para nos apoiar nesse caminho espiritual, para aceitar com fé e amor a vinda do Salvador.

BENTO XVI, PAPA

Texto original: Italiano

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mons. Guido Marini em entrevista sobre o Advento

O jornal italiano Avvenire entrevistou Mons. Guido Marini, mestre das Celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice, sobre o tempo litúrgico que agora iniciamos.

- Monsenhor Marini, qual é o significado do Advento?
O Advento é o tempo da espera. Da espera que faz referência a uma vinda, que é a vinda do Senhor Jesus, o Filho de Deus, o único Salvador do mundo. O povo cristão, neste tempo forte do ano litúrgico, vive a própria fé renovando a feliz consciência de uma tríplice vinda do Senhor, como falaram os Padres da Igreja.

- Isto é?
Uma primeira vinda, da qual fazemos memória, é aquela do Filho de Deus na história dos homens, no momento da Encarnação. Uma segunda vinda se realiza no hoje da vida, e é incessante. Esta se realiza de diversos modos, a começar pela Eucaristia, presença real do Senhor em meio aos seus, e também nos sacramentos, na palavra das Sagradas Escrituras, nos irmãos, especialmente os pequenos e necessitados. Uma terceira vinda, atenderá nossa esperança, é aquele que se realizará no fim dos tempos, quando o Senhor retornará na glória e tudo será recapitulado nEle.

- O advento também possui uma dimensão mariana?
No tempo do advento o povo cristão é chamado a renovar a consciência que a sua vida é toda contida no mistério de Cristo, aquele que era, que é e que vem. Também por isto o Advento é um tempo marcadamente “Mariano”. A Santíssima Virgem é aquela que num modo único e irrepetível viveu a espera do Filho de Deus, é aquela que de modo singular é toda contida no mistério de Cristo.

De que modo os simples fiéis e as comunidades cristãs podem ajudar-se para viverem melhor este momento forte do tempo da Igreja?
Entrando neste tempo com uma atitude interior de quem se prepara para viver um período de conversão e de renovamento, orientando decididamente a própria vida ao Senhor. A Igreja, com o ano litúrgico, nos oferece periodicamente a graça de viver momentos espirituais fortes, ocasiões propícias para retornar com ímpeto ao caminho até a santidade. No advento este ímpeto possui um sentido singular, que é aquele da alegria. A alegria ao pensar que o Senhor já se mostrou no seu rosto de amor misericordioso e inimaginável. A alegria ao pensar que o Senhor é nosso contemporâneo e está hoje próximo a nós, no presente da nossa existência, no cotidiano simples da nossas jornadas. A alegria ao pensar que o futuro não está escondido na obscuridade, mas resplandece na luz do Céu, de Deus em Cristo. Todo isto transforma a experiência de vida também em uma virtude de conversão pessoal e comunitária, realizada através de uma oração mais intensa e prolongada, do distanciamento de uma mentalidade secularizada e de uma caridade mais generosa e autenticamente cristã.

- Quais são as características das celebrações neste período?
A liturgia, através dos ritos e das orações, conduz à uma participação ativa do mistério celebrado. Portanto, nas celebrações do tempo do Advento, deve transmitir o sendo da espera típico do Advento. Deve fazer isto com suas próprias orações, com os cantos, com o silêncio, com as suas cores. E com as suas luzes. Em tudo deve fazer-se presente o mistério do Senhor que vem, Ele que é o Princípio e o Fim da história; em tudo deve-se perceber de algum modo tocável a alegria verdadeira e sóbria da fé; em tudo deve-se transparecer o empenho pela mudança do coração e da mente para uma pertença mais radical a Deus.

- E quais as particularidades da liturgia pontifícia?
Embora estando em um contexto específico, devido à presença do Santo Padre, as liturgias papais não podem deixar de apresentar as características típicas deste tempo litúrgico. Com uma nota a mais: a exemplaridade. Porque não se pode esquecer que as celebrações presidida pelo Papa são chamadas a serem ponto de referência para toda a Igreja. É o Papa, o Sumo Pontífice, o grande litúrgo da Igreja, aquele que, também nas celebrações, exercita um verdadeiro e próprio magistério litúrgico ao qual todos devem convergir.

- Este ano em particular a liturgia das Primeiras Vésperas inseriu uma “Vigília pela vida nascente”. Qual é o significado desta particular “combinação”?
Se trata de uma combinação que está se revelando feliz. A iniciativa de uma “Vigília pela vida nascente” proposta pelo Pontifício Conselho pela Famíla, vem de tal modo a inserir-se na celebração do início do Advento, um tempo muito propício para abordar o tema da vida. O Advento é o tempo da espera de Maria, que trazia no seio o Verbo de Deus feito carne.
O Advento é esperar a Verdadeira Vida, aquela que se manifestou no Filho de Deus feito homem, plenitude e cumprimento do desígnio de Deus sobre a humanidade. Naquela Vida, surgida em Belém, a dignidade de cada vida humana encontrou significado novo e definitivo. Assim, verdadeiramente, rezar pela vida nascente, no contexto das Primeiras Vésperas do início ano litúrgico, resulta significativo e providencial.

Fonte: Jornal Avvenire (27.11.10)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento

Sua Santidade o Papa Bento XVI presidiu na tarde de sábado (27.11.2010), na Basílica de São Pedro, as Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento.
As vésperas foram inseridas no âmbito da vigília pela vida do nascituro, na perspectiva do Tempo de Advento e do Natal que se aproxima. Várias paróquias, comunidades, movimentos e associações de todo o mundo aderiram ao convite do Papa de rezar pela vida nascente.
Em sua homilia, o Santo Padre exortou os protagonistas da política, da economia e da comunicação social a promoverem uma cultura de respeito pela vida, buscar condições favoráveis e redes de apoio ao acolhimento e desenvolvimento da vida. "A vida, uma vez concebida, deve ser protegida com o máximo cuidado" – frisou Bento XVI. 
O Papa agradeceu a todas as pessoas que aderiram ao convite de celebrar uma vigília pela vida nascente. "O início do Ano Litúrgico nos faz viver novamente a espera do Deus que se fez homem no seio da Virgem Maria, o Deus que se fez pequeno, se tornou uma criança" disse ainda o pontífice.
Bento XVI ressaltou os problemas que afetam as crianças após o nascimento como abandono, fome, miséria, doença, abusos, violência e exploração. "As muitas violações dos direitos das crianças que se comentem no mundo ferem dolorosamente a consciência de toda pessoa de boa vontade" – frisou o Papa.
"Diante deste triste cenário de injustiças perpetradas contra a vida humana, antes e depois do nascimento, faço minhas as palavras do Papa João Paulo II em favor da responsabilidade de todos e de cada um: respeita, defende, ama e serve a vida, toda vida humana. Somente neste caminho encontrarás justiça, desenvolvimento, verdadeira liberdade, paz e felicidade" – disse Bento XVI. 
A vigília pela vida do nascituro marcou também a conclusão do Congresso Internacional da Família promovido pelo Pontifício Conselho para a Família. Um encontro que abordou o tema da família como sujeito ativo na pastoral e no anúncio missionário e que contou com a participação e o testemunho de vida de muitas famílias.


Algumas fotos da cerimônia:

- Entrada do Santo Padre -

- Exposição do Santíssimo Sacramento -

- Ritos Iniciais -
Deus in adjutorium meum intende...
A celebração das vésperas é composta por um hino e três salmos, o cântico evangélico do Magnificat, encerrando com o canto do Pater noster.

- Adoração e benção do Santíssimo Sacramento -
Detalhe para o Brasão de armas de Bento XVI nos paramentos litúrgicos usados nas Vésperas Solene. 

- Ritos Finais -
 Após a despedida o coro entoou a antífona: Alma Redemptores Mater...
Após o fim da celebração o Santo Padre recebeu algumas familias que participaram da vigília pela vida nascente, realizado antes da celebração das vésperas.

 Os Acólitos que serviram a celebração litúrgica. 
Os Diáconos assistente saudando o Santo Padre após a celebração
Mons. Konrad Krajewski osculando a mão do Sumo Pontifice

Fonte: L'Osservatore Romano
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