sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Mensagem de sua Santidade Bento XVI para a celebração do XLIV dia mundial da paz
(1 de janeiro de 2011)
LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ
1. NO INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar a todos e cada um os meus votos: votos de serenidade e prosperidade, mas sobretudo votos de paz. Infelizmente também o ano que encerra as portas esteve marcado pela perseguição, pela discriminação, por terríveis actos de violência e de intolerância religiosa.
Penso, em particular, na amada terra do Iraque, que, no seu caminho para a desejada estabilidade e reconciliação, continua a ser cenário de violências e atentados. Recordo as recentes tribulações da comunidade cristã, e de modo especial o vil ataque contra a catedral siro-católica de «Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» em Bagdad, onde, no passado dia 31 de Outubro, foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fiéis, quando se encontravam reunidos para a celebração da Santa Missa. A este ataque seguiram-se outros nos dias sucessivos, inclusive contra casas privadas, gerando medo na comunidade cristã e o desejo, por parte de muitos dos seus membros, de emigrar à procura de melhores condições de vida. Manifesto-lhes a minha solidariedade e a da Igreja inteira, sentimento que ainda recentemente teve uma concreta expressão na Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, a qual encorajou as comunidades católicas no Iraque e em todo o Médio Oriente a viverem a comunhão e continuarem a oferecer um decidido testemunho de fé naquelas terras.
Agradeço vivamente aos governos que se esforçam por aliviar os sofrimentos destes irmãos em humanidade e convido os católicos a orarem pelos seus irmãos na fé que padecem violências e intolerâncias e a serem solidários com eles. Neste contexto, achei particularmente oportuno partilhar com todos vós algumas reflexões sobre a liberdade religiosa, caminho para a paz. De facto, é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não é possível professar e exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto por causa da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque constitui uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além disso, é uma ameaça à segurança e à paz e impede a realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral.[1]
Mensagem do Diretor Espiritual
Salve Maria!
Venho felicitar os membros do Conselho Arquidiocesano, a todos os Servidores do Altar de nossa querida Arquidiocese de Belém, e a todos os que amam esse piedoso serviço que os nossos jovens exercem no Altar de nossas comunidades paroquiais, zelando e cuidando da sagrada liturgia. A todos vós um forte abraço e que a Augusta Soberana Mãe de Deus, a qual celebramos amanhã (01 de janeiro), no seu silenciar diante da manjedoura, seja nosso maior exemplo de serviço e temor a Deus.
Feliz 2011! Que minha benção sacerdotal chegue a todos os Servidores do Altar e seus familiares. Venho também externar minha gratidão total a todos vós que se empenham em trabalhar para a maior glória de Deus ao longo de 2010, e que em 2011 estejamos juntos para continuar essa grande obra de Deus, nessa Igreja particular de Belém.
Feliz Ano Novo a todos!
Padre Wiremberg José da Silva
Diretor Espiritual Arquidiocesano
Servidores do Altar
Servidores do Altar
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Bento XVI se encontra com os "Pueri Cantores" no Vaticano
“Vocês expressam a alegria da alma que encontra Deus”
Bento XVI
Bento XVI
"O canto que expressa o amor de Deus pelo homem e do homem por Deus é um 'serviço' que contribui para aumentar a fé de toda a Igreja". Foram as palavras com as quais Bento XVI expressou sua gratidão aos Pequenos Cantores.
O Pontífice recebeu na manhã desta quinta-feira (30.12.10) na Sala Paulo VI, no Vaticano, milhares de crianças, jovens e adolescentes pertencentes a numerosos coros provenientes de várias partes do mundo, que participaram nestes dias, em Roma e no Vaticano, do 36º Congresso da Federação Internacional dos Pueri Cantores.
Um agradecimento em oito línguas, do inglês ao russo, para comunicar a todos um mesmo pensamento: buscar as palavras e as notas justas para cantar para Deus significa levar a alma de quem escuta o canto a fazer seu, de certo modo, um pedacinho do céu; significa tocar o amor de Deus com as cordas do coração.
Numa Sala Paulo VI repleta de música e de vitalidade, Bento XVI dirigiu-se aos presentes, cerca de 4.500 pessoas que nestes dias participaram do referido Congresso: aproximadamente cem coros de 14 países de quatro continentes, com três mil vozes de crianças, jovens e adolescentes dos 7 aos 17 anos.
Fonte (texto): Radio Vaticano
Fonte (Fotos): L’Osservatore Romano
LITURGIA DA PALAVRA: SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
(Oitava do Natal - 1 de janeiro)
Por: Dom Emanuele Bargellini*
“Maria guardava cuidadosamente todos estes fatos e meditava sobre eles no seu coração”
Leituras: Nm 6, 22 – 27; Gl 4, 4 -7; Lc 2, 16 – 21
No oitavo dia da solenidade do Natal, no cume, por assim dizer, do dinamismo vital com que o Espírito Santo fecundou a Bem-Aventurada Virgem, a Igreja contempla e celebra na fé e na alegria o mistério de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja e da nova humanidade renascida em Cristo.
Durante o tempo do Advento, a liturgia ficou repetindo todos os dias a saudação do anjo: “Maria, alegra-te, ó cheia de graça, o Senhor está contigo; és bendita entre todas as mulheres da terra” (Liturgia das Horas: Antífona da Hora média; cf Lc 1, 28; 42).
A virgem Maria é saudada pelo anjo, e celebrada pela Igreja, como aquela que de maneira única está portando no seio e irradia ao redor de si mesma a graça de Deus feita pessoa, o Filho do Altíssimo que já no seu próprio nome, Jesus, indica sua profunda identidade e sua missão: revelar a benevolência do Pai, salvar e resgatar do mal toda a humanidade e abrir novamente para ela o caminho para a casa do Pai. Maria, Mãe de Deus, participa também na geração da nova humanidade, cujas primícias é a pessoa do próprio Jesus (cf. Rm 5, 15-19).
Deus continua seguindo o critério da simplicidade, da fraqueza, do “esvaziamento” (cf. Fil 2, 6-11); critério este, escolhido desde o início para se manifestar e atuar na história. Ele suscita a resposta livre da fé por parte de todos os parceiros que chama para colaborar na sua obra redentora. Assim como fez com Abraão, pai dos crentes, com os patriarcas e com os profetas, do mesmo modo atua com Maria e com José. Ao cumprir-se o tempo estabelecido por Deus de realizar seu projeto de salvação, não envia seu Filho do céu, em maneira espetacular, mas Ele “nasce de mulher” como todo homem, e está inserido na história gloriosa e ambígua do povo de Israel, destinatário primeiro da aliança e portador da esperança para todos os povos (cf. 2ª leitura - Gl 4, 4-5).
O lugar onde se cumprem as promessas de Deus e se manifesta a sua potência que salva não é a nobre cidade de Jerusalém, nem o lugar sagrado do templo, mas o menino recém-nascido, deitado numa manjedoura. Somente os pobres e os simples de coração, afinados com Deus, como os pastores, conseguem receber o surpreendente anúncio do céu e acreditar nele. Os pastores de Belém representam os pobres de todos os tempos, no solícito caminho rumo ao menino, assim como na capacidade de reconhecer com estupor no recém nascido da manjedoura, o Salvador esperado pelo povo e anunciado pelos anjos. Pela luz interior que os acompanha, eles se tornam “anunciadores da boa nova” até para aqueles que se encontram junto do menino, suscitando maravilha mesmo nos pais dele (Lc 2, 16-18).
Para todos os efeitos, Jesus, o Filho do Pai, é também o filho do seu povo, da experiência humana, espiritual e cultural de sua gente, do seu tempo. O papa João Paulo II, na sua histórica visita à sinagoga de Roma (1986), quis lembrar a todos os cristãos que os judeus são nossos “irmãos maiores”, e que desta carne nasceu Jesus. Ao seguir a novidade produzida pelo próprio Jesus, não podemos esquecer as raízes judaicas da experiência cristã. É a fidelidade ao mistério da Encarnação que exige de nós tal atenção. O esquecimento desta perspectiva não é estranho aos devastadores critérios que ao longo dos séculos marcaram infelizmente as relações entre cristãos e judeus, até a Shoa, o holocausto do povo judeu, ocorrido no século passado.
Neste povo e nesta história santa o menino Jesus é inserido plenamente com o rito simbólico da circuncisão ao oitavo dia depois do nascimento, - como lembra o Evangelho de hoje - quando recebe o “nome” escolhido por Deus e preanunciado pelo anjo. Assim como acontecia nos tempos de Jesus, ocorre ainda hoje no povo de Israel a circuncisão com os meninos recém-nascidos.
Os profetas (cf Jr 4,4), assim como o Novo Testamento, reivindicam a dimensão interior da circuncisão, a “circuncisão do coração”, enquanto sinal da aliança e da fidelidade ao Senhor. Paulo ensina com vigor que a autêntica circuncisão que faz o verdadeiro Israel, é a do coração (cf Rm 2, 25 - 27; Gl 5,5). Por isso a profissão de fé em Jesus e o batismo, desde muito cedo, irão substituir o sagrado e antigo rito judaico para os discípulos de Cristo, o realizador da nova aliança. Mas o apóstolo admoesta sempre que somente uma vida animada e guiada pelo Espírito de Cristo, faz dos discípulos, autênticos “circuncidados no coração” e “batizados” no Senhor.
A este mundo humano e espiritual Jesus é introduzido gradualmente por Maria e José, aos quais fica submetido em filial obediência, enquanto cresce em vigor físico e sabedoria espiritual, e ao mesmo tempo vai abrindo seu próprio caminho para cumprir sua vocação e missão pessoal ao serviço do Pai.
Na Sagrada Família, como em toda família que acredita no Senhor, todos juntos e cada um de parte sua, Maria, José e Jesus, estão aprendendo dia após dia seu caminho, buscando descobrir e seguir a vontade de Deus. À materna preocupação manifestada por Maria ao encontrá-lo no templo de Jerusalém três dias depois ter se afastado da família, Jesus responde: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai? Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes dissera. Desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe, porem, conservava lembrança de todos estes fatos em seu coração” (Lc 2, 49-51). A maternidade de Maria é dom sublime de Deus. Mas é também uma aprendizagem progressiva na fé e no amor, que alcançará sua plenitude aos pés da cruz, quando o próprio Jesus entregará a ela como um filho, no discípulo amado, toda a humanidade, e esta, por sua vez, será entregue pelo Senhor à Maria, que nesse instante será uma Mãe para todos (cf Jo 19, 25 – 27).
O evangelista Lucas destaca com insistência a atitude interior de Maria - com certeza partilhada também por José - frente aos acontecimentos da vida. Ela continua, por assim dizer, o processo de gestação e interiorização da Palavra que tinha concebido em si mesma por obra do Espírito Santo na plena disponibilidade da fé e que agora não cessa de interpelá-la. Esta atitude de silêncio meditativo, de contemplação cheia de perguntas sem respostas imediatas e de entrega confiante ao mistério de Deus, acompanhará Maria ao longo da sua vida junto de Jesus, nos momentos alegres e nos momentos problemáticos e tristes (Lc 2, 51; Mt 12,48-50), até os pés da cruz.
Por esta atitude de escuta, silêncio e entrega confiante a Deus, a Virgem Maria se torna as primícias do reino de Deus e exemplo da Igreja inteira e de todo discípulo e discípula de Jesus. É o próprio Jesus a nos oferecer esta perspectiva cheia de fascínio para aqueles que acreditam nele: “Jesus respondeu àquele que o avisou: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E apontando para os discípulos com a mão, disse: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12, 48-50).
Gostaria partilhar algumas reflexões de Santo Agostinho sobre estas palavras de Jesus, reflexões com que ele une de maneira admirável no mesmo caminho de fé a Virgem Maria, a Igreja e cada um de nós.
“Prestai atenção, rogo-vos – diz o grande doutor da Igreja – naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para os discípulos... Acaso não fez a vontade do Pai a virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu?... Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isso mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o mestre, trazia-o na mente....Santa Maria, feliz Maria! Contudo, a Igreja é maior que a Virgem Maria. Por quê ? Porque Maria é porção da Igreja, membro santo, membro excelente, membro super-eminente, mas membro do corpo total....Portanto, irmãos, dai atenção a vós mesmos. Também vós sois membros de Cristo. Vede de que modo o sois. Diz: Eis minha mãe e meus irmãos...Como sereis mãe de Cristo? “Todo aquele que ouve e faz a vontade do meu Pai que está nos céus, este é meu irmão e irmã e mãe ” (Sermão 25,7-8; LH IV, 1466-67).
Maria foi eleita e chamada por graça a dar sua própria carne ao Filho de Deus para ele realizar sua missão de Salvador para todos os homens e mulheres. Na sua resposta de fé e de entrega incondicionada a Deus, Maria primeiro realiza aquela atitude interior que, nas palavras do próprio Jesus, constitui a condição para fazer de todo discípulo e discípula, a exemplo de Maria, o seio fecundo onde a Palavra de Deus é acolhida e se torna principio vital da nova existência animada pela fé.
Maria foi eleita e chamada por graça a dar sua própria carne ao Filho de Deus para ele realizar sua missão de Salvador para todos os homens e mulheres. Na sua resposta de fé e de entrega incondicionada a Deus, Maria primeiro realiza aquela atitude interior que, nas palavras do próprio Jesus, constitui a condição para fazer de todo discípulo e discípula, a exemplo de Maria, o seio fecundo onde a Palavra de Deus é acolhida e se torna principio vital da nova existência animada pela fé.
O mesmo Espírito que fecundou a virgindade de Maria fecunda a fé da Igreja e a faz mãe fecunda, capaz de gerar filhos e filhas com a pregação da Palavra, a experiência pascal dos sacramentos e a proximidade do amor.
Admirável Natal! Nós, os renascidos à vida do Pai como filhos e filhas adotivos no Filho, pelo dom do Espírito que nos anima (2ª leitura – Gl 4, 5-7), somos inseridos em tamanha intimidade com Jesus, que nos tornarmos seus irmãos, irmãs, e mesmo sua mãe! Capazes, por graça, de fazê-lo nascer a cada dia em nós para que nós possamos viver sempre mais nele e para ele, até partilhar com o apóstolo a admirável experiência da plena conformação com ele: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Estas afirmações, que vêm da Escritura, dos Padres da Igreja e da Liturgia, talvez soem um pouco surpreendentes aos nossos ouvidos. Talvez sejamos tentados a reduzi-las como lindas e sugestivas expressões poéticas, destinadas a acariciar nossa sensibilidade estética e nossa emotividade devota. Pelo contrário, nos deixam vislumbrar o coração do mistério do amor de Deus e do seu esvaziamento que nos introduzem de novo no caminho da vida e da verdade. Deixam-nos vislumbrar o mistério da fecundidade insondável da fé de Maria e da fecundidade da Palavra de Deus no coração de todo discípulo e discípula de Jesus, quando a recebem e a guardam com fé. Oferecem-nos as razões mais profundas e o caminho mais certo para alimentar e guiar nosso culto e nosso amor filial a Maria, nossa irmã e mãe na fé, na esperança e na caridade.
O povo cristão desde o início, com a intuição simples e profunda da sua fé, percebeu e honrou na virgem Maria, a Mãe de Deus e do Redentor, e a Mãe da Igreja. É como se exprime o Concílio Vaticano II: Maria foi e “é saudada também como membro super-eminente e de todo singular da Igreja, como seu tipo e modelo excelente na fé e caridade. E a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, honra-a com afeto de piedade filial como Mãe amantíssima” (LG 53).
A constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, no capítulo 8º, nos oferece uma maravilhosa síntese da fé e da piedade da Igreja do Oriente e do Ocidente sobre a “Bem-aventurada virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja”. Um tesouro ainda por descobrir, junto com outra mina preciosa, rica da linfa vital da tradição e de elementos novos, constituída pela liturgia renovada pelo Concílio e dedicada às celebrações de Santa Maria.
*Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma).
Um Pouco da História de Nossa Arquidiocese - Paróquia da SS. Trindade I
Foi o Capitão General Governador do Estado do Grão Pará e Maranhão Francisco Xavier de Mendonça Furtado quem solicitou ao Ministério Real, através do Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo - seu irmão, que viria a ser, mais tarde, o poderoso Marquês de Pombal o envio de famílias e homens solteiros para povoarem a Vila de Sousa do Caeté, já denominada de Bragança, em dezembro de 1753. A migração só começou em 1755 e em 1759, proveniente da Angra do Heroísmo de uma das ilhas do arquipélago dos Açores, chega a Belém José Antônio Abranches, angrense com 16 anos, acompanhado de três irmãos menores: Joaquim José, 14; José João, 12 e João António, 10, órfãos de pai e mãe. José António Abranches chegou no mesmo ano em que daqui partia o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado que concedera a Abranches a mercê de ficar em Belém para trabalhar na lavoura. Católico fervoroso, José António e seus irmãos eram devotos da Santíssima Trindade. O Senado da Câmara, sob a presidência de Feliciano Ramos Nobre Mourão e os vereadores João Luís Francisco Barbosa, Felicíano Ferrão e Peres da Silva, concederam aos irmãos Abranches o uso das terras situadas antes e aquém do Lago do Piry. Aos 19 anos, três anos depois de fixar-se na terra, Abranches já mantinha viçosas leiras de hortaliças, uma respeitável criação de porcos da raça "Du-roc", aves (galinhas e patos), além de cultivar um respeitável pomar onde os laranjais e limoeiros começavam a produzir à farta.
Desse labor, outras pessoas começaram a aproximar-se e fazer suas casinhas e, desse modo, surgiu um novo bairro na cidade, denominado de "Aldeia". Abranches e seus irmãos começaram a comercializar o que colhiam e os grandes consumidores de seus produtos eram os barcos da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão que, torna-viagem, abasteciam-se de tudo, sendo apreciadíssimas suas laranjas e limões que, além de servirem aos tripulantes, serviam de garantia contra o "cólera morbos" e outras doenças que grassavam entre eles. Tal prática levou Abranches a acumular considerável soma em "patacas", o que lhe deu a condição de "apatacado". O início do Século XIX recrudesceu em Abranches, já com 58 anos, o desejo de construir uma Igreja em honra da Santíssima Trindade, Em 1802 pôs em andamento o seu projeto. Solicitou ao 7° Bispo do Pará, D. Manuel da Silva Carvalho, permissão para construir a Igreja. Esta lhe foi concedida, mas o Bispo adiantou-lhe que o bispado era carente de recursos, mas, que "se os recursos próprios acabarem, tens permissão para buscar espórtulas entre o povo". De posse da permissão do Bispo d. Manuel, Abranches dirigiu-se ao Paço do Conselho onde estavam reunidos os seguintes vereadores: Bento de Figueiredo Tenreiro, António Álvares Fernandes de Carvalho, Caetano Alberto Ribeiro, João de Araújo e Francisco Pereira de Cristo. Foi tão apaixonante a exposição de Abranches na presença dos vereadores que dir-se-ía tocado pela Santíssima Trindade, atingindo o clímax da emoção quando rematou: "A vida já me foge, mas antes que ela fuja por inteiro, hei de ver a Igreja de Nossa Senhora da Trindade erguida.”
O Presidente do Senado da Câmara e seus presididos concederam o que Abranches pedia e fez mais Bento de Figueiredo Tenreiro, o Presidente: concitou os vereadores a dirigirem-se, acompanhados de José António Abranches, até a presença do Capitão General Governador Francisco Maurício de Sousa Coutinho, para aprovação. O terreno cedido situava-se em um pequeno outeiro e toda a área existente ao redor da pequena elevação próxima ao Grande Lago do Piry, na mesopotâmia formada peio Lago e Igarapé da Comedia do Peixe Boi (atual Arcipreste Manoel Theodoro), pertencia à Igreja. Era o ano de 1802. Abranches atirou-se com denodo na faina de construirá Igreja. Logo, logo, o humílimo povo do bairro da Aldeia, ao ver o entusiasmo incontido de Abranches na construção do templo, juntou-se para ajudá-lo de todas as formas. Com esse apoio, Abranches fundou a Irmandade da Santíssima Trindade- "Santo Mistério de nossa religião", como diz José António. A exsicação do Grande Lago do Piry começou justamente nas proximidades da construção da Igreja, para alegria de Abranches. Esse trabalho foi ordenado pelo novo governador D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde dos Arcos.
A Irmandade da Santíssima Trindade tornou-se poderosa com a entrada das famílias endinheiradas. A festa da cumeeira, bem como a cobertura e a construção do altar. Foram emoções demais para José Antônio Abranches. No dia 4 de novembro de 1804, com 62 anos, sua vida apagou-se. A consternação foi imensa pelo fato de ter sido Abranches o instituidor da devoção à Santíssima Trindade, em Belém e no Pará. Seu corpo foi sepultado no terreno do adro da Igreja, em sua parte posterior, na altura da atual Rua dos 48. Nove anos depois, em 1813, estava concluída a Igreja, tendo apenas o altar-mor, quatro arcos nas paredes laterais indicando os lugares em que, no futuro, deveriam ser edificados mais quatro altares, sendo dois em cada lado, tudo isso graças aos esforços dos três irmãos do falecido Abranches. No ano seguinte, em junho, teve lugar a abertura e inauguração da Igreja de Nossa Senhora da Trindade. A Irmandade mandara buscar, em Lisboa, um artístico painel, óleo sobre tela, indicativo do orago da Santíssima Trindade, da lavra do famoso pintor António Leonardo, que estivera em Belém acompanhando o séqüito do Conde dos Arcos. Encomendara, também, todos os paramentos e demais objetos do culto em ouro e prata, bem como uma profusão de fogos de artifício. No dia 1° de junho de 1814, o bispo D. Manuel de Almada de Carvalho, pela manhã, benzeu o novo templo e, à noite, houve as vésperas (hora canônica que vem depois das nonas e correspondente as três da tarde) com queima de fogos de artifício noite adentro e com grande afluência popular. No dia seguinte, domingo, aconteceu a grande festa. A missa solene (laus laudemus) foi presidida pelo prelado, com grande instrumental. À noite prosseguiu o espetáculo da queima dos fogos, estando o templo aberto a todos os fiéis. A partir desse dia, a Irmandade da Santíssima Trindade mandava celebrar missa às sete horas nos domingos e dias santos. Nos sábados, à noite, era rezada a ladainha. Anualmente promovia-se a Festa da Santíssima Trindade com toda a magnificência.
Todos os anos, 20 dias antes dessa Festa, a Irmandade levando a Coroa de ouro, percorria a cidade, casa em casa, tirando esmolas para a festa. Bons tempos aqueles em que se podia sair portando uma coroa de ouro...Outra festa que marcou época em Belém, no Século XIX, era a de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, promovida pela Sra. Maria Simoa, devota fervorosa desde 1809 quando mandara buscar, em Lisboa, a imagem da Senhora, em fino trabalho escultural. A imagem era colocada em um oratório, em sua residência situada na Rua dos Inocentes (atual General Gurjão) esquina da Travessa São Mateus (atual Padre Eutíquio). Lá eram celebradas missas aos domingos e dias santos. A festa anual era promovida na Igreja de SantAna para onde era levada com grande acompanhamento. Maria Simoa, com recursos próprios e coadjuvada pela Irmandade, devidamente autorizada pelo bispo D. Romualdo de Souza Coelho, fez edificar em alvenaria, na parede lateral direita da Igreja de Nossa Senhora da Trindade, um altar para receber Nossa Senhora do Rosário do Barreiro. No dia 10 de abril de 1822, pronto o altar, a imagem saiu da Igreja paroquial de SantAna, levada nos braços do pároco José Joaquim Martins, paramentado de sua sobrepeliz e estola e acompanhado de 24 clérigos de sobrepeliz e com tochas acesas. A procissão saiu de Sant’Ana, às 18 horas, com grande acompanhamento e foi depositada em seu altar definitivo. Pelo menos, assim se pensava. Nessa noite na Igreja de Nossa Senhora da Trindade celebrou-se as vésperas e, no dia seguinte, realizou-se a festa em honra à nossa Senhora do Rosário do Barreiro.
A Lei Provincial número 63, de 4 de setembro de 1840, assinada pelo presidente da Província do Pará, João António de Miranda, elevou a Igreja de Nossa Senhora da Santíssima Trindade à categoria de Freguezia, tendo sua instalação sido efetivada em 12 de março de 1843, ocasião em que foi nomeado o seu primeiro vigário, o paraense Manoel Vasques da Cunha e Pinho. Este vigário dotou a sua Igreja de pia batismal em mármore de carrara, como também mandou edificar, em alvenaria, o segundo altar fronteiro ao de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, para si-metrisara sua igreja paroquial. Esse padre faleceu sete anos depois de sua investidura, isto em 1850, sendo substituído pelo padre, também paraense, Dionísio Rodrigues Aliança. Este sacerdote também veio a falecer depois de 11 anos prestados ao rebanho da Freguesia da Santíssima Trindade, em 1861. O terceiro pároco foi o padre baiano Manoel Ignácio da Silva Espíndola, que esteve à frente da paróquia por seis anos, sendo transferido para a Bahia pelo bispo D. Antônio de Macedo Costa, que era baiano como ele. O antístete nomeou como quarto vigário o francês Augusto João Maria Coller. A história desse padre é interessante. Foi casado e quando ficou viúvo entrou para o Seminário Diocesano que era dirigido por D. Macedo Costa. Infelizmente, ao assumir a paróquia terminou com todas as devoções e festas ali existentes. Retirou do seu altar a imagem de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, colocando em seu lugar uma outra imagem da Virgem Maria, para que fosse celebrado, em maio, o mês mariano instituído por d. Macedo Costa. No altar em frente entronizou a imagem de São José e o artístico painel representando a Santíssima Trindade foi retirado sumariamente. Daríamos tudo para ver como os nossos ancestrais a representavam. Nossa Senhora do Rosário e o painel foram levados para lugar incerto e não sabido.
Eis a proto-história da Igreja de Nossa Senhora da Trindade. [...] A construção original, como já vimos na matéria do historiador José Valente, iniciada sob o comando de José António Abranches, data de 1814. A edificação atual é de 1942. A história secular da Igreja da Trindade, no centro de Belém, se confunde com a história da expansão e da transformação da cidade.
* Por José Valente
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